O início de
tudo…
Sempre imaginei que seria tão simples relatar um
parto. Bastava descrever como foi o processo, colocar uma foto da nova família
e pronto. Mas não. Não foi simples começar a escrever, talvez porque não seja
fácil parir no Brasil e tenhamos que estudar tanto para conseguir.
Eu nasci de parto normal, naquele padrão frank,
episio, médico me pegando pelas pernas, cabeça pra baixo, tapa nas costas, cor
arroxeada, que segundo a equipe foi devido à demora em meu nascimento, o que me
levou ao oxigênio, pois tive dificuldade para respirar. Nunca saberemos se tudo
isso foi necessário, mas isso impactou muito na minha busca por um parto digno,
causando alguns debates com a minha mãe.
Em 2002 me mudei de Curitiba para o Rio porque
encontrei, pela internet, o grande amor da minha vida, Felipe. Mais ou menos em
2005 comecei a estudar sobre o parto. Assistia a todos os programas do
Discovery e, até assistir "Casas de Parto", eu acreditava que parto
era aquilo: força, força, força... contar até 10....soro padrão. Mas com o passar
do tempo fui entendendo que a mulher deve ser a protagonista dessa história e
não a equipe médica.
Conversar com minha avó, que teve 12 filhos em
casa, me esclareceu muita coisa. A dor nunca foi um medo para mim e desde
criança eu já tinha pavor de cesárea. Da minha infância à adolescência eu só
ouvia coisas horríveis sobre cesárea. Uma vizinha voltou ao hospital depois de
15 dias e passou um mês internada. Uma colega da minha mãe morreu após a
cesárea.
Enfim, para mim, cesárea era algo feito apenas numa
necessidade absurda e me surpreendi muito ao descobrir que hoje é praticamente
impossível conseguir um parto digno. Eu, definitivamente, não passaria por uma
cesárea e comecei a estudar. Comecei a participar da lista do Yahoo, Parto
Nosso, e tudo foi fazendo sentido. Lia vários blogs: Xô, Episio!, Parto do
Princípio, A Bolsa da Doula, Amigas do Parto, Amigas do Peito.
Durante muito tempo tentei incentivar amigas
grávidas a parirem, me tornei uma ativista radical, mas nunca rolou. Desisti.
Entendi que isso é uma escolha muito pessoal e decidi guardar as informações
para quando a minha gravidez chegasse.
A gravidez…
Enfim, depois de 10 anos de casamento, Felipe e eu
decidimos coroar esse momento com nosso tão esperado filhote. Decidimos no meu
aniversário de 36 anos, em 2012, em viagem a Apucarana, mas já tínhamos perdido
aquele período fértil. Em setembro perdemos a data novamente, éramos dois
tentantes escrevendo monografia. Em outubro, mês em que comemoramos nossos
primeiros dez anos de um casamento cheio de amor, enfim, engravidamos. Se
formos considerar o período fértil, foi a nossa primeira tentativa.
Achávamos que demorariam alguns meses, afinal, para
a obstetrícia brasileira eu sou uma idosa, com 36 anos. Foi uma surpresa ser
assim, tão rápido. Eu havia baixado um aplicativo para controlar temperatura,
muco, etc., e já estava com uns quatro dias de atraso. Como eu tomava pílula,
não fazia ideia da periodicidade do meu ciclo. Então, numa manhã de domingo,
18/11/12, fiz um teste de farmácia e lá estavam duas listras lindas.
Na mesma semana tinha consulta com minha
endocrinologista e já pedi uma guia para o Beta, pois ainda precisaria agendar
GO e eu ainda não confiava totalmente no teste de farmácia, apesar de ter
custado "ozoidacara".
Em 23/11/12 era oficial, POSITIVO. Combinamos de
não contar a ninguém por um tempo, pois, além de querer confirmar os batimentos
na ultra, eu também pretendia mentir sobre a DPP. Comuniquei minha querida e
amadíssima doula, Ana Lúcia, que eu havia escolhido em agosto de 2011, quando a
conheci ao levar uma amiga numa reunião do Ishtar.
Umas duas semanas depois contei para minha mãe,
afinal mãe é mãe. No dia 12/12/12 apresentei minha monografia e anunciei a
gravidez para minhas amigas queridas da faculdade. Apenas pedi para não
comentarem no FB, pois ainda não tinha comunicado no trabalho e sim, eu tinha
uma grande resistência a fazer isso. Sei que as empresas detestam gestantes,
acham que fazem corpo mole, que vão faltar muito, e quando descobri que estava
grávida já havia duas e logo apareceu mais uma. Imagine quatro grávidas ao
mesmo tempo. Durante o período em que mantive meu segredo, trabalhei muito,
participei de reuniões longe do escritório e suava frio pensando que meu enjoo
me denunciaria. Foram semanas muito tensas, muito calor, muito trabalho, muita
gente folgada me passando trabalho que nem era meu, mas como acredito que uma
empresa deve ser uma equipe, lá ia eu. Até que, conversando com meu marido,
decidi abrir logo o jogo e não esperar até janeiro como eu pretendia, para
comunicar.
Decidi isso porque estava muito desgastante o
início da gravidez em pleno verão e eu tinha medo de estar sendo negligente ao
não dar ao meu corpo o repouso que ele estava pedindo. E nós esperamos tanto
por esse momento, foram 10 anos esperando a melhor data para engravidar e não
seria justo corrermos qualquer risco por conta de sobrecarga de trabalho.
Contei e confesso, me senti aliviada.
Ainda em dezembro fomos a nossa primeira reunião do
Ishtar, como grávidos. Eu já tinha passado por uma consulta com a GO do plano,
que havia atendido a amiga que levei ao Ishtar em 2011. Detestei! Em janeiro
tentei mais uma opção do plano. Péssimo! Eu sabia que seria impossível
conseguir um GO humanizado no plano de saúde, mas precisa provar a teoria.
No final de janeiro fomos a uma consulta com o
Nakamura e estávamos quase decididos, digo quase por questão de custo mesmo.
Teríamos que desembolsar um dinheiro que não existia, então busquei outras
opções. Fomos conhecer a Casa de Parto em Realengo, mas a distância e a
possibilidade de ser transferida para o Hospital da Mulher, em Bangu, nos
fizeram decidir por não fazer lá o pré-natal. Pensei na MMA, mas ainda não
conhecia muita gente que tivesse parido lá. Desistimos.
O Felipe já estava tenso por eu não estar sendo
acompanhada por ninguém efetivamente e decidi, mais uma vez, tentar o plano de
saúde. A médica foi muito sincera, de cara me disse que tem emprego público,
que não tem como sair para acompanhar um TP e me disse que só faz cesárea. Eu,
muito ingenuamente, disse que tudo bem, afinal era só por conta dos exames e
tal, até aí eu não sabia que era possível realizar exames solicitados por
médico fora do plano, e avisei que já tinha GO humanizado, já pensando no
Nakamura. Ela me disse que não me atenderia nessas condições porque se eu
tivesse qualquer problema no parto as investigações e/ou processos iriam recair
sobre o médico que fez o pré-natal e ela não correria esse risco. Agradeci e
fui embora.
Isso já era abril e já sabíamos que a empresa onde
o Felipe trabalhava iria realmente fechar e usaríamos a rescisão e/ou
empréstimo bancário para custear a Perinatal mais o GO. Porém, com o Nakamura
não rolou aquela química que eu esperava, pois eu sempre me consulto com
médicas, de oftalmologista à ginecologista. Fui a ginecologista homem apenas
UMA vez na minha vida e minha doula tinha comentado sobre a Ana Fialho, um anjo
em minha vida, e lá fui eu. AMEI a consulta. Saí de lá ligando para a doula e o
marido, estava em êxtase. Na segunda consulta a doula foi comigo e a Ana Fialho
comentou sobre a Maternidade São Francisco, em Niterói. Fomos conhecer e nos
encantamos, sala equipada, bola, piscina inflável, água quente, nossa GO
poderia nos atender lá e ainda não precisaríamos pagar internação, isso seria
com o plano. Perfect!
No meio de tudo isso ainda estávamos procurando um
apartamento para alugar, pois quando retornamos do interior do Paraná, em 2009,
demos um tempo na casa do meu sogro e morávamos em um quarto pequeno, sem a
menor condição de abrigar uma família de três pessoas e duas gatas.
No dia em que fomos conhecer a maternidade, eu
conheci o apartamento. Estávamos esperando a papelada da imobiliária e ele
seria nosso. Fizemos a mudança e enfim comecei a pensar realmente na gravidez.
Comecei a ler A maternidade e o encontro com a própria sombra e ele mudou a
minha vida.
Mesmo planejando me dedicar mais, os 30 dias
seguintes foram bastante agitados, trabalhei muito e encarar o ônibus era
complexo, as coisas em casa ainda estavam se organizando e o tempo em casa se
limitava das 19h30m às 23h00m, pois eu precisava acordar antes das 6h no dia
seguinte. Me senti muito frustrada, pois tenho algumas habilidades manuais e me
vi sem bordar nenhuma pecinha para o meu bebê, sendo que perdi as contas de
quantos presentes fiz para minhas amigas. Não costurei, não bordei, não tricotei,
nada, nada vezes nada. Mas o principal eu fiz: me informei, me empoderei, reuni
uma equipe sensacional, tinha uma maternidade com espaço adequado para o meu
parto, tracei o plano B, caso não desse tempo de chegar a Niterói, que seria ir
para a Maria Amélia.
Com 32 semanas esses planos mudaram, após uma
reunião no Ishtar Tijuca, quando o Thiago e a Anne falaram sobre sua fuga da
maternidade. Felipe concordou em termos nosso bebê surpresa em casa, com a
assistência da Maíra, a japarteira. Agora esse era o plano A. Agendamos nossa
primeira consulta para 22/06/13, às 17h.
O rompimento da bolsa…
15/06/13 - Em nosso último final de semana
sozinhos, fomos ao supermercado perto de casa e nos equipamos para fazer um
fondue. Comi horrores. Trabalhei na segunda-feira muito bem, mas na terça o
mau-humor era extremo. Não dei conta nem de arrumar minha mesa, tamanho o
estresse e irritação. O Felipe teve enxaqueca de manhã e eu até sugeri que ele
deixasse o carro na Gávea e voltasse de táxi para casa. Naquela noite, 18 de
junho de 2013, fiz uma sopa e dormimos cedo. Por volta de 1h30 levantei da cama
num pulo só e senti escorrer uma água quente pelas pernas. Achei que não tinha
conseguido segurar o xixi, mas também pensei na bolsa. Fui ao banheiro e a água
escorrendo. Voltei devagar para o quarto, peguei o celular e fui escrever para
a Ana Fialho. Assim que voltei para o banheiro o Felipe apareceu perguntando o
que estava acontecendo. Depois de trocar algumas mensagens com a Ana Fialho,
decidimos ir para a Maternidade São Francisco, em Niterói, para avaliar a
situação. Nessa época estávamos tendo vários protestos no Rio de Janeiro,
alguns chegaram a bloquear a ponte Rio-Niterói.
Na maternidade, antes de qualquer avaliação,
solicitei que a plantonista ligasse para a Ana Fialho, após fazer o cardiotoco
e o toque que comprovou a ruptura da bolsa. A Ana Fialho disse que poderíamos
voltar para casa, aguardar o trabalho de parto. Não havia dilatação ainda. E
assim o fizemos, às 35sem+3dias. Chegamos em casa por volta de 3h da manhã e
dormimos. Felipe ligou para o meu trabalho e avisou o que havia acontecido - e
aqui fica a dica: MINTA, minta para toda e qualquer pessoa que não esteja
diretamente envolvida no processo. As pessoas se preocupam, desconhecem os
protocolos e é desgastante tentar acalmar as pessoas e informá-las de que você
não é maluca.
Não havia uma peça de roupa do bebê lavada, eu
tinha certeza de que chegaria às 42 semanas. Nós havíamos nos mudado há um mês,
estava tudo uma bagunça. O berço nem estava montado ainda. Passei meu primeiro
dia de bolsa rota muito tranquilo, quase todo ele deitada, pois o líquido
ficava escorrendo o tempo todo e é bastante desagradável ficar vazando água o
tempo todo. Esse primeiro dia foi de expectativa pelo trabalho de parto, mas nada
aconteceu. Logo chegaram as 24h de bolsa rota e o recomendável era começar o
antibiótico. Combinei com minha doula, Ana, e ela nos acompanhou até a
maternidade. Nesse momento eu sabia que estava indo para a maternidade para
iniciar o antibiótico e induzir o parto.
Nessa noite eu sentia algumas cólicas muito leves.
Na maternidade fomos atendidos por uma plantonista cesarista e nessa hora usei
todo o conhecimento assimilado ao longo de 09 anos de estudo. Ela queria fazer
um toque para verificar se havia dilatação e eu disse que a bolsa estava
rompida há 24h e o correto é não fazer toque (também já estava orientada pela
GO). Ela disse que o protocolo que eu seguia estava diferente do padrão, pois,
segundo ela, a rotina é interromper a gestação quando há rompimento da bolsa
pós 34 semanas. E eu disse que isso seria feito, a gestação seria interrompida,
em uma indução de parto, não através de uma cesárea. Ela nos tratava, eu e o
marido, como se não tivéssemos conhecimento de nada e só ela soubesse de tudo.
Quando ela enfatizou que o procedimento era toque + cardiotoco, eu disse, muito
ríspida, para ela ligar para a minha GO e então verificarmos o que fazer.
Ela voltou da ligação igual a um gatinho escaldado,
passou a nos explicar o protocolo, o procedimento do cardiotoco. Me colocou na
máquina, verificou que os batimentos estavam ótimos e que não havia contração.
Me encaminhou para a internação e antibiótico. Nesse momento começou a tensão,
pois a sala de parto humanizado só pode ser usada em trabalho de parto. Fui
para uma enfermaria, mais três leitos comigo. Meu marido não poderia ficar
comigo, pois à noite só liberam acompanhantes femininas. A Ana ficou comigo.
Pela primeira vez na vida eu tomei soro. Foi tranquilo. Algumas cólicas vinham
às vezes. O dia amanheceu, Felipe dormiu no carro, estava uma noite fria e
minha echarpe o salvou. Em trocas de mensagens com a GO ela me disse que não iria
logo pela manhã à maternidade, que era para aguardar o trabalho de parto
começar. Tomei café da manhã e a doula voltou para o Rio, já que esperaríamos o
trabalho de parto e a GO. O Felipe pode entrar e ficar comigo, a tensão
aumentando, pois eu acreditava que teria de ficar naquela enfermaria até o
trabalho de parto realmente começar. Achei esse tempo na maternidade meio
inútil, fora o antibiótico, pois em nenhum momento alguém ouviu os batimentos
do bebê. Ficamos tensos, a maternidade estava lotada das cesáreas da noite
anterior, era uma quinta-feira, na quarta operaram 18 mulheres.
As enfermeiras confirmaram que estava tudo tão
lotado que desmontaram o quarto para parto humanizado, e que não havia NENHUM
quarto disponível, nem pagando particular, já que eu estava pela internação da
UNIMED. A tensão foi tanta, de imaginar que ficaria ali, com aquele monte de
gente, que teria de passar por um trabalho de parto ali e que seria encaminhada
para um centro cirúrgico para poder parir, que insisti com a GO para que ela
fosse me ver e me dizer que estava tudo bem com o bebê e conseguir me
transferir para um quarto reservado, com privacidade para um trabalho de parto.
O trabalho de parto ?!?…
Perto da hora do almoço a Ana Fialho chegou, fez um
toque e eu estava com 2 cm. Me liberou para tomar o antibiótico em casa e fazer
acompanhamento da temperatura corporal. Saímos dali, fomos ao shopping comprar
o bebê conforto, Felipe tinha que almoçar, eu ainda não tinha nenhuma touquinha
para o bebê. Chegamos em casa e descansei até a sexta-feira, quando as cólicas
começaram a aumentar um pouco. Conversei com minha doula, Ana, e baixei um app
para acompanhar as "contrações", mas não havia ritmo, parecia que não
terminava nunca.
Diversas vezes fui para a bola no chuveiro.
Melhorava e eu voltava pra cama. Deitei por volta de 22h30 e até 1h30 eu não
tinha conseguido dormir nada. O bebê não parava de rebolar na minha barriga.
Dormi. Por volta de 2h30 acordei com ele mexendo muito e logo em seguida parou
TOTALMENTE. Meu coração gelou. Ficou assim quase meia hora, nessa hora eu
decidi que iria antecipar a indução para o sábado. Fui para o chuveiro e ele
voltou a mexer com força total. Entrei em contato com a GO e com a doula e
comuniquei minha decisão. Minha doula chegou às 6h. Me fez uma massagem
maravilhosa nas costas, acho que cochilei. Comi um pouquinho de sucrilhos, mas
sem muita vontade de comer. Desde quinta-feira meu corpo começou a se preparar
e várias vezes fui ao banheiro. No sábado não foi diferente.
O Felipe foi ao supermercado e eu fiquei com a Ana,
conversando sobre a mudança para o novo apartamento, sobre indução, sobre a
bagunça eu não tinha conseguido por em ordem. Durante esse meio tempo a minha
GO e a doula trocaram mensagens e confirmamos a ida à maternidade após o
almoço. A Ana cozinhou para nós, macarrão à bolonhesa. Almoçamos, me troquei e
saímos. Eu sentia as mesmas cólicas de sempre, fui sentadinha no banco da
frente, como sempre fiz, desligando o celular que não dava trégua (lembre-se de
não contar a NINGUÉM sobre bolsa rota, indução e ida à maternidade).
Eu pretendia chegar na maternidade com GO, mas ela
estava tentando localizar algum pediatra humanizado e não conseguiu (lembre-se
de consultar o pediatra antes e fechar o atendimento. Não dá muito certo esse
esquema de "pediatra da equipe". Ou talvez não tenha dado certo
comigo porque era um sábado e em Niterói). Fui para o atendimento com
plantonista, já com 300 pedras na mão, devido ao atendimento de quinta-feira.
Por incrível que pareça a plantonista era ótima, nem cogitou fazer toque, fez o
cardiotoco e me encaminhou para a sala de parto, para aguardar minha GO. Enfim
estávamos na salinha linda que eu havia conhecido um mês antes. A piscina já
estava sendo cheia de água quente, bem quente. A enfermagem foi ótima,
supersimpáticas
.
O parto…
A Ana Filho chegou e fez um toque, às 16h40m. Eu
estava com 9 cm. Falei para a doula: é caô, ela quer me animar. A doula me
disse: acho que não, senão ela não teria suspendido a medicação da indução.
A GO me liberou para piscina, ficar uma horinha ali
e ver como tudo evoluía, pois, apesar dos 9 cm, o bebê ainda estava alto. A
enfermagem esqueceu-se de avisar que a piscina estava enchendo, quase
transbordou, tivemos que esvaziar um tempão. Depois disso, muitas fotos, já que
não o fiz quando grávida. Pude ficar muito à vontade, com meu biquíni e top
escolhidos, rebolando na água quente, ao lado do marido, com a luz apagada. Mas
não rolou.
A GO sugeriu que tentássemos uma pequena dose de
ocitocina sintética e eu aceitei, eram muitas horas de bolsa rota, eu não
estava ali para um campeonato de quem fica mais tempo com a bolsa rota e um
prematuro na barriga. Hoje eu não sei se foi o certo, se poderíamos ter
esperado mais, se viraríamos a madrugada aguardando as contrações realmente
chegarem pra valer... mas como o "se" não existe, acatei e veio a
enfermagem colocar o acesso.
Essa foi a pior parte pra mim, pois só depois de
parir é que descobri que eu poderia dobrar meu braço (lembre-se: se colocarem
um acesso na dobra do seu cotovelo, naquele lugarzinho básico de coletar
sangue, você PODE DOBRAR O BRAÇO, só eu não sabia disso).
Assim que a ocitocina começou a pingar eu já
comecei a sentir algo diferente. Voltei para a piscina e a partir daí não
fiquei mais sozinha. Era marido, na banqueta para parto de cócoras, GO sentada
no vaso sanitário e a doula em pé, me trazendo água sempre. Depois da ocitocina
as contrações começaram a vir e eu só me lembrei de fechar os olhos, abrir a
boca e vocalizar.
Hoje, pelas fotos, eu consigo ver que o tempo entre
as contrações era bem espaçado, mas na hora parecia tudo muito rápido. Bastou
1/10 de uma bolsa de soro. Eu comecei a sentir muuuuuuuito calor, tomei muita
água, meu buço começou a suar e então a GO diminuiu a vazão do líquido, que
segundo meu marido, logo parou de pingar (ou seja, fiquei com aquele negócio
fincado no braço à toa). A contração não dá descanso. É uma vontade
imensa de empurrar. Mesmo que eu não quisesse, é algo involuntário e como eu
estava ali pra isso mesmo, me entreguei totalmente e seguia a onda. Durante o
tempo que a contração ia embora eu comi meu chocolate favorito, dei risada,
descansei, tomei água. Aí vinha mais uma contração eu comecei a sentir o bebê
realmente saindo. Me lembro de reclamar que estava demorando e a GO me dizendo
que era assim mesmo, que ele tinha que ir e voltar algumas vezes para preparar
o meu corpo para ele nascer. Me lembro de reclamar que estava doendo, mas hoje
não posso dizer que o que senti foi dor. Foi uma transformação.
Tentei mudar de posição algumas vezes e me via
presa por aquele acesso no braço e acabei parindo na posição mais convencional.
Ao meu lado tinha uma barra para segurar, estava sendo amparada pelo meu
marido, sentado atrás de mim e constantemente tentando encostar os joelhos um
no outro e a GO os separando. As contrações vinham cada vez mais próximas e
parecia que meu corpo ia se partir ao meio. GO sempre monitorando o coração do
bebê surpresa, eu concentrada ouvindo os batimentos com ela. Muita conversa
fora da sala, era o hall de visitas e aquilo me irritava cada vez mais. Era
enfermeira abrindo a porta da sala e a luz chegando ao banheiro e a irritação
só aumentando. Me deu vontade de gritar e mandar todos calarem a boca. Não sei por
que não o fiz.
Aí vinham as contrações e eu saia do mundo. Não me
apavorei, mas a sensação de que corpo estava se abrindo ao meio me dava medo.
Mas acho que foi isso mesmo que aconteceu. A Valeria de antes estava partindo,
estava morrendo e dando lugar a uma nova vida e a uma nova Valeria.
Num desses momentos só conseguia ouvir o Felipe
dizer “que maneiro, a cabeça tá saindo” e a voz embargada, e todos olhando e eu
não acreditando. Numa pausa coloquei a mão e a cabeça estava ali mesmo. Não sei
quantas contrações depois ele nasceu, mas quando veio uma contração
avassaladora e eu senti o círculo de fogo, sentia que estava chegando a hora.
Felipe no meu ouvido, me dizendo que estava nascendo e eu não conseguia parar
de empurrar e esperar a próxima contração, não queria que ele voltasse e eu ter
que recomeçar tudo de novo, mal tinha me dado conta de que a cabeça já estava
fora.
enfim, após 90h de bolsa rota, nasceu…
E a GO o colocou direto no meu colo, e era só choro
e sorrisos... e a enfermagem querendo saber, e eu não sabia de mais nada. Só
olhava o Felipe e dizia nasceu, nasceu, eu te amo. E a GO, que o havia coberto,
perguntou se não iríamos ver se era menino ou menina.
Era um menino. Lindo. Com um cheiro delicioso. Um
cheiro único, que não existe nada parecido no mundo. Tiramos fotos. Tudo passou
tão rápido. A pediatra truculenta do plantão chegou, querendo cortar o cordão,
a GO conseguiu fazê-la esperar... só cortamos quando parou de pulsar. Felipe
cortou o cordão e foi correndo acompanhar o filhote. Não souberam ou tiveram má
vontade mesmo para ligar o berço aquecido da sala de parto e decidiram levar
para o berçário.
Felipe correu calçar tênis, a Ana, doula, correu
para entregar o plano de parto e eu implorando pra não deixar limpar o vérnix
nem pingar colírio. Fiquei meia hora conversando com minha doula aguardando
a placenta nascer. A Ana Fialho deu um toquinho no cordão e ela saiu, uma
contração leve e quente. Ela me mostrou e disse que tinha dois lóbulos...ainda
não sei para que serve isso. Uma pena eu não ter pensado em trazê-la para casa
e plantar num vaso.
Tive uma laceração mínima na mucosa, provavelmente
por não ter esperado mais uma contração pra ele nascer. Me vestiram, me levaram
para o quarto e fiquei três horas aguardando meus Felipes chegarem. Nesse tempo
eu liguei pra enfermeira, pois disseram que seriam duas horas, mas o seguraram
por três horas, acho que por não termos aceitado o atendimento padrão da casa.
Amamentação e terrorismo da enfermagem…
Felipe foi para o quarto após três longas horas no
berçário. Eu, morrendo de fome, pois o lanche que me ofereceram eram 3 torradas
com manteiga e suco de maracujá. Gente, como oferecem isso pra uma pessoa que
acabou de parir? As enfermeiras me disseram que a cozinha já estava fechada e
que minha médica deveria ter prescrito antes que eu poderia comer.
Enfim, tentamos colocar o Felipe para mamar, com a
ajuda de uma enfermeira ríspida, que só chamava o menino de preguiçoso, porque
ele não queria mamar. Ele estava cansado e com sono, apenas isso. Veio com
aquela luva horrorosa na mão, colocando a boca do Felipe no meu peito, enfiando
aquele dedo com a luva cheirando a látex junto, um horror. Eu comecei a passar
mal, tudo ficou escuro, Felipe pai em busca de um chocolate na bolsa e nem
assim eu me recuperei. Quase desmaiei e chamaram outras enfermeiras que me
colocaram na cama e alteraram sua posição. Então me recuperei, dormimos e às 5h
começou o terrorismo: levar o menino ao berçário para começar a furação em
busca de hipoglicemia e infecção.
A amamentação foi difícil, mesmo após a volta para
casa. Eu não me preparei para isso, achei que amamentar era como mostra na
campanha de aleitamento materno, põe o bebê no peito e a mágica acontece.
Difícil, mas não desisti e estamos aqui, em setembro de 2014, com leite garantido
aos 14 meses.
Conclusão…
Quem quer realmente parir no Rio de Janeiro hoje,
deve estudar muito e buscar acompanhamento baseado em evidências. Não fosse
todo o conhecimento que adquiri e a confiança na obstetra, eu teria sido presa
fácil na maternidade na segunda noite em que estive lá, para começar o
antibiótico. A médica do plantão achava que eu deveria interromper a gravidez
ali mesmo, porque essa é a conduta esperada, a que ela conhece.
Escrever um relato de parto um ano depois dele
acontecido deve ser bastante diferente de escrever logo após o parto. Nos
primeiros dias eu estava tão encantada e maravilhada com tudo, que não
conseguiria fazer um balanço real do que aconteceu. Foi tudo perfeito do modo
que foi possível ser. Mas também foi tudo muito rápido depois que cheguei à
maternidade. A falta de um pediatra da equipe me frustrou muito, pois tive que
abrir mão de ficar com meu filho, mesmo ele estando muito saudável. Ele não
mamou na primeira hora porque o hospital não permitiu e o prendeu no berçário
por três horas. Mesmo assim, estou muito feliz com o meu parto. Me transformou
em outra pessoa e hoje sou muito mais tolerante com algumas coisas e tão pouco
com outras. Estranho concluir isso.
gRATIDÃO…
Agradeço a todos que me ajudaram ao longo desses
nove anos de estudo, ao meu amado marido Felipe, por ter enfrentado todos os
seus medos e seguido firme comigo nas reuniões do Ishtar, na busca por um
acompanhamento confiável, por ter ficado do meu lado desde o momento em que a
bolsa rompeu até voltarmos para casa, com um bebê todinho nosso. À minha GO,
Ana Fialho, por ter sempre me tranquilizado e por não ter tocado no Felipe
nenhuma vez, até ele nascer. À minha querida doula, Ana, por ter sido um anjo
em minha vida desde o dia em que nos conhecemos, em agosto de 2011, e por ser
me trazido calma e serenidade durante toda a gestação até o nascimento do nosso
peraltinha. Agradeço a minha família e meus amigos, que mesmo preocupados e
apreensivos, confiaram em mim e me deixaram parir em paz, sem terrorismo, sem
palavras desencorajadoras, apenas cuidado. Agradeço ao meu filho, Felipe
Suntack Vieira, por ter me escolhido para ser sua mãe e por ter me ajudado a
iniciar minha transformação, minha revolução humana.
Fotos…
![]() |
| descansando entre as contrações |
![]() |
| amparada pelo marido, esperando mais contrações |
![]() |
| contração pegando |
![]() |
| mais do mesmo |
![]() |
| curtindo um carinho nos intervalos |
![]() |
| marido que te apoia é outra coisa |
![]() |
| Felipe me zoando e dizendo que tava tudo ótimo, chocolate, piscina quentinha, aí fiz um gesto meigo pra ele |
![]() |
| Nasceu e essa foi nossa primeira foto (obrigada Ana, doula fotógrafa nas horas vagas) |
![]() |
| Felizes e fora do mundo |

















